Entre a proibição e a negligência:
quem ainda educa diante dos ecrãs?
É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe. — José Saramago
Porque somos tão lentos a reconhecer a vulnerabilidade dos mais jovens perante os ecrãs e estagnados em reconhecer a vulnerabilidade dos mais velhos perante outros dispositivos, abandono e INcomunicação?
O Parlamento Europeu defendeu uma idade mínima digital harmonizada de 16 anos para o acesso às redes sociais sem consentimento parental. A Comissão Europeia, por seu lado, tem vindo a desenvolver mecanismos de verificação da idade.
A intenção parece clara: proteger menores de práticas viciantes, manipuladoras e cognitivamente predatórias. Responsabilizar plataformas, criar sistemas de verificação da idade e reduzir exposição.
Impor limites.
Pode haver bondade nesta medida. Mas a minha reflexão não é sobre os jovens. É sobre tempo e simetria.
Nesta ocasião, em que se discute a proteção dos mais novos perante ecrãs que os capturam, continua quase invisível a exposição dos mais velhos vulneráveis a outro tipo de ecrã: a televisão permanente, muitas vezes ligada durante horas, em salas comuns, com volumes suportáveis para uns e agressivos para outros, com conteúdos indiferenciados, repetitivos, ou soníferos.
Que nome damos a isto?
Entre legislação sobre dignidade humana, não discriminação, negligência e maus-tratos, ainda não vi, lá de cima, o mesmo zelo concreto aplicado a quem, em fases de fragilidade cognitiva, sensorial ou emocional, passa dias inteiros sentado perante um estímulo que não escolheu, que não controla e que muitas vezes já não consegue interpretar com conforto.
Nos jovens, teme-se que o algoritmo substitua a relação.
Nos mais velhos, tolera-se que a televisão substitua a presença.
Num caso, fala-se de proteção e saúde mental.
No outro, fala-se pouco.
O problema será mesmo o ecrã? Ou no que desapareceu entre o humano e o ecrã?
No meu tempo — expressão que muito aprecio e não compreendo porque alguns investem o seu tempo a classificá-la de idadista — havia pessoas a mediar. Já sabemos da ladainha: o mundo não é o mesmo. Pois não. Mas num mundo que muda, há algo que permanece: a INcomunicação gera doença. A comunicação de facto, é salutogénica.
Parece que tendemos à antítese do pensar: ou proibimos, ou abandonamos. Esquecemos que entre a proibição e a negligência existe uma palavra antiga, exigente e pouco sexy: educação. Não falo de instrução. Teimo: Educação.
Proibir a violência concreta, com consequências concretas – sim, que se proíba afincada e diariamente. Proibir aquilo que poderia ser mediado (estimulando e facilitando a educação de altíssima qualidade e acompanhando) é, apenas mais um atestado de incompetência coletiva.
Esquecer outras ameaças que atingem os mais velhos, não por serem velhos, mas por acumularem — vulnerabilidades que os incapacitam de se defenderem — talvez tenha um nome. Não, não é idadismo. Será outra cousa que ainda aprenderemos. Por agora, chamo-lhe a INcomunicação que vem de cima. Não dos céus. Mas de cima:
Daqueles que já não são a juventude que não sabe o que pode, e ainda não são a velhice que não pode o que sabe.
Daqueles que com contumácia, não usam o conhecimento disponível ao serviço da comunicação, das pontes e dos limites entre pessoas.
Ao arrepio das idades.
Valorizando o tempo.
Oh raça!* que coisa esta que vem lá de cima.
Por tudo isto, talvez seja hoje da mais pura rebeldia trabalhar com o conhecimento que vem de baixo. Não dos infernos, mas da vontade humana que insiste em estar presente apesar do ecrã da televisão.
Ainda há pouco lá estive: nas tardes em que uns rezam o terço sem padre; outros estão na horta sem agricultor; outros, ainda, na culinária sem chef de cuisine; e outros ajudam a organizar as suas roupas nas gavetas sem gouvernante de maison. Entre outras cousas que fazem parte do miolo da vida.
Mas todos têm algo em comum: tardes libertas da televisão. Não porque a televisão seja má em si, mas porque se torna debilitante quando deixa de ser companhia e passa a ocupar o lugar do mundo — o miolo de dias cujos pulmões, ritmadamente, ainda insistem em se enamorar com o ar. Que saborosa rebeldia!
Quando o conhecimento não está ao serviço, para que serve conhecer?
* Expressão muito usada no meu tempo. É sinónimo de: que aborrecível, que chatice, que chato, que apoquentação, entre outros sinónimos que reflitam incómodo exteriorizável.
Publicado a 4 de Maio de 2026
Por Leonor Cerqueira, sobre a longevidade que dá que pensar!
Leitura relacionada
“Bem haja Leonor, por mais esta interessante reflexão filha do seu insistente propósito de aplicar conhecimento para acrescentar conhecimento à Vida de tantos, abandonados e/ou esquecidos à sua sorte, em qualquer idade e sitio 🙏”
17-05-26
“É verdade – sujeitamos os nossos mais velhos a horas infinitas de televisão; sejam eles nossos familiares (); sejam eles nossos utentes em instituições. É uma companhia de fundo – aquela que está sempre lá – como que a compensar a correria (e ausência) das presenças reais (os cuidadores formais ou informais). Lamentavelmente, os adultos com duas gerações a cargo não têm muito tempo de sobra nas exigências das vidas de hoje; e quem trabalha na área – já corre muito para chegar a tudo o que é preciso. Há que repensar uma legislação laboral que facilite cuidar melhor dos mais velhos (e dos mais novos); passamos muito tempo a trabalhar e pouco a acompanhar; Os apoios governamentais às instituições devem melhorar para que se possam munir de mais recursos humanos (a IA não consegue afecto no cuidar).” 24/05/26