O Mito do Idadismo e a Sociedade da “Pele Lisa”

Do novo para o mais velho:
“Tem 83 anos? Parece muito mais novo do que a idade que tem.”

Do mais velho para o mais novo:
“Sabes, no meu tempo não era assim.”

Da empresa que recruta:
“Pretendemos um perfil dinâmico, flexível, proativo…”

Hoje, estas frases — ditas sem malícia — podem fazer surgir um dedo acusador, quase bisbilhando:
o novo é idadista. O mais velho é idadista. A empresa é idadista.

Diz-se que é idadismo linguístico: elogiar a juventude, valorizar a memória, destacar características de trabalho. Estaremos todos loucos ou apenas reféns de um policiamento da linguagem que nos vai encolhendo ao ponto…

…de duvidarmos, a cada momento, do que pensamos e dizemos — mesmo sem qualquer intenção de ferir?

Bem-vindos à reflexão de hoje.
O foco não é apenas a linguagem. É o que ela está a esconder:
uma sociedade que encolhe, que teme envelhecer e que usa o controlo das palavras para mascarar problemas muito mais profundos.

A primeira coisa que poderíamos cogitar é simples: o policiamento da linguagem não resolve nada. Piora.
É a “novilíngua”, conceito de George Orwell, transportado para o quotidiano.

Quando um médico chama um cidadão que ainda não conhece, vê na ficha que tem 83 anos e, ao encontrá-lo, comenta:
“É o Sr. Silva? Não parece ter 83 anos!”
Está a expressar admiração. É uma perceção. Não é um julgamento moral. Proibir o elogio à vitalidade não faz com que se respeitem mais os mais velhos. Faz apenas com que as pessoas tenham medo de falar.

E aqui está o ponto:
se criamos um tabu em torno da idade, estamos a admitir que a idade é vergonhosa. O verdadeiro idadismo começa quando deixamos de poder falar naturalmente sobre o tempo. O tempo que temos. O tempo que somos.

Continuando com o que dói.
Nos recrutamentos, pedem-se perfis “dinâmicos”, “flexíveis”, “proativos”.
Muitas vezes, isto é apenas um código para: queremos alguém que aceite ganhar menos e que não tenha vida fora do trabalho.

Mas não nos enganemos:
uma empresa que substitui alguém de 50 por alguém de 25, não o faz por ódio aos mais velhos.
Faz porque o sistema económico atual premeia o baixo custo imediato.
Se o profissional mais velho custasse o mesmo que o mais novo, seria dispensado? Provavelmente não.

E depois surge o contra-ataque: consultores 40+, 50+, 60+ a listar as virtudes da idade — “nós mais velhos, somos melhores”.
Como se um idadismo se combatesse com outro.
Afinal, o que queremos nós?

A maior vocalização do idadismo linguístico, revela-se hoje, de forma mais marcada, na discriminação dos mais velhos. Não sendo a linguagem que erradica o problema há como que uma assimetria difícil de ignorar: policia-se o que se diz sobre os mais velhos, enquanto se continua a falar dos mais novos com uma liberdade quase brutal.
Imaturos, frágeis, preguiçosos, viciados em redes etc…

Há algo que raramente é discutido com a seriedade devida: pela primeira vez na história moderna, há sinais de uma humanidade a encolher. O índice de fecundidade está abaixo do nível de substituição em quase todo o Ocidente.
As crianças tornaram-se raridade. Em muitos contextos, quase um luxo.

E onde está o idadismo aqui?

Estamos a criar uma sociedade de eternos jovens de 40 anos que não têm filhos.
Seja por falta de vontade, de condições, de esperança ou por simples mudança de valores — não interessa acusar. É um facto.

Em paralelo: substituem-se filhos por animais, simulam-se maternidades com bonecos newborn, vendem-se chuchas para adultos ansiosos.

Os bebés começam a ser a pérola de uma ostra dolorida.

E nós? Gastamos fortunas em anti-aging. Não apenas por vaidade — mas por medo. Medo de sermos a geração que apaga a luz. Quando não há renovação, instala-se o pânico e o culto da juventude torna-se uma tentativa desesperada de negar o tempo.

O idadismo não é a causa.
É o sintoma de uma sociedade que perdeu o sentido da sucessão.

Então, apontar o dedo idadista resolve o quê?
O novo é idadista. O mais velho é idadista. A empresa é idadista.
E a solução é… policiar a linguagem?
Poupem-me!

Se o idadismo fosse como todas as ignorâncias que fermentam em qualquer preconceito, a aplicação séria das leis, resolvia. Mas não é.
É uma falha estrutural:
– Na economia, que não sabe valorizar o que não é imediatamente escalável;
– Na demografia, que se nos avizinha a vislumbrar casas cheias de máquinas e vazias de netos;
– E no uso da psicologia para um marketing tribalista do comportamento, que nos ensina a vigiar palavras e a ignorar e/ou promover a solidão real.

Já foi o tempo — e esta expressão talvez também seja suspeita — em que uma ideia de Fernando Savater seria acolhida com mais clareza:
“O que o ser humano mais deseja no seu íntimo, é não ser tratado como coisa.” E isto, é ou não independente da idade?

Não precisamos de novos dicionários nem de patrulhas de linguagem. Precisamos de uma cultura que aceite que envelhecer não é um erro de percurso — é o único destino de sucesso. Porque, se tivermos o azar de envelhecer num mundo sem crianças, o menor dos nossos problemas será saber se alguém nos chamou de dinâmicos ou elogiou a nossa pele que não corresponde à idade.

“O que é que que te assusta mais: envelhecer ou viver num mundo onde já não vem ninguém a seguir?”

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